Grupo era comandado pelo deputado federal André Janones; Lula chama decisão de ‘absurda’ e diz que cobrará explicações
O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal no WhatsApp “Exército do Lula”, comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Neste domingo (11), chegando a um ato que acontece na Avenida Paulista, o presidente Lula (PT) criticou a decisão e disse que “não vai aceitar intromissão indevida da Justiça Eleitoral na eleição” (veja abaixo).
O grupo ganhou relevância após o presidente Lula (PT) ficar na segunda colocação no primeiro turno e já reunia 3,3 milhões de apoiadores. Na segunda-feira (5), o canal tinha cerca de 55 mil seguidores.
Nunes Marques acatou um pedido feito pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que alegava que o canal era usado para espalhar “afirmações inverídicas”.
“A mobilização digital, portanto, é lícita e não constitui objeto desta decisão. O que a norma não tolera é que a estrutura de mobilização seja empregada para fins ilícitos, entre os quais a difusão coordenada de fatos sabidamente inverídicos em desfavor de candidato”, diz Nunes Marques na decisão.
O que diz Nunes Marques
Na manifestação, Nunes Marques defende que o canal é usado para disseminar fatos que o TSE “já reconheceu como inverídicos”. “O juízo sobre os principais conteúdos distribuídos pelo canal já foi feito por este Tribunal, em decisões jurisdicionais, várias delas proferidas contra o próprio administrador.”
Entre elas, o ministro elenca três:
- “narrativa sobre a Padroeira do Brasil”, em que o candidato Flávio Bolsonaro iria retirar o título de Padroeira da Nossa Senhora Aparecida;
- “imputação de envolvimento com milícia”, que Flávio teria relação com organizações criminosas no Rio de Janeiro;
- caso das “aposentadorias, BPC e Bolsa Família”, em que o senador cortaria benefícios sociais.
Nos três casos, Nunes Marques cita decisões anteriores da Justiça Eleitoral que derrubaram conteúdos nas redes contendo as mesmas alegações.
Além da divulgação de supostas mentiras que afetariam a campanha de Flávio Bolsonaro, Nunes Marques diz que André Janones cria mecanismos para burlar o plano de conformidade do WhatsApp para as eleições, como limitar o número de encaminhamentos.
“O canal orienta os seguidores a copiar o link e colá-lo nos grupos e distribui textos prontos, redigidos em primeira pessoa, para circularem como se fossem de quem os repassa”, diz Nunes Marques.
O magistrado ainda cita que Janones, após decisões da Justiça, vinha apagando conteúdos que poderiam gerar problemas jurídicos para o canal.
“A remoção mensagem a mensagem não protege o eleitor nesse ambiente. A atualização chega a mais de três milhões de aparelhos no instante em que é publicada; é levada aos grupos por cópia de link e de texto, fora do alcance dos limites de encaminhamento, e é apagada pelo próprio administrador depois de cumprida a ‘missão’. O mecanismo do canal se resume a: quando uma ordem judicial alcança a mensagem, ela já deixou o canal”, defende o magistrado.
Por fim, o ministro também condena o modelo de “comando único”, em que Janones pauta o grupo e os apoiadores replicam os conteúdos “sem juízo próprio”. “
“Organizar apoiadores não é ilícito. Mas a mensagem é inequívoca quanto ao método: o seguidor não é convidado a examinar o conteúdo que recebe, e sim a reproduzi-lo, sob comando, sem juízo próprio.”
Decisão do corregedor do TSE segue linha oposta
Neste sábado (10), o corregedor do TSE, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, proferiu uma decisão que envolve o canal no WhatsApp, em outra ação ajuizada pela campanha de Flávio Bolsonaro.
Kassio Nunes Marques seguiu uma linha oposta à do magistrado, que havia negado a suspensão do canal e pedido que Flávio apresentasse, em 72 horas, mais detalhes de quais conteúdos gostaria de tirar do ar.
Ricardo Villas Bôas Cueva negou a suspensão, alegando que poderia haver “sobreposição com medidas requeridas em outras ações”, o que poderia expor a Justiça ao “risco de decisões conflitantes e comprometer a segurança jurídica”.
O magistrado ainda determinou que Flávio delimitasse de forma mais precisa quais conteúdos deveriam sair do ar. “A inicial não estabelece, com a necessária precisão, a correspondência entre cada publicação, a irregularidade concretamente atribuída e eventual pronunciamento judicial anterior sobre o mesmo conteúdo”, alega o ministro.
Apesar da negativa, Cueva acatou o pedido de Flávio e decidiu dar andamento a uma ação de investigação judicial eleitoral que irá analisar se a chapa do atual presidente cometeu uso indevido dos meios de comunicação social, abuso do poder econômico e abuso do poder político pela operação do canal.
É um processo distinto ao relatado por Nunes Marques e que suspendeu o funcionamento do canal. Esta ação relatada por Cueva é mais ampla e pede, inclusive, a cassação da chapa e a inelegibilidade de Lula e Alckmin.
O ministro deu cinco dias para apresentação das defesas de Janones e da chapa de Lula.
Lula diz que decisão é ‘absurda’
Pouco tempo depois, Lula chamou a decisão de “absurda” e disse que os advogados de sua campanha irão pedir explicações ao presidente do TSE.
“Estou desconfiado do comportamento da Corte Eleitoral, que tem bloqueado muita gente nossa. Nós vamos entrar hoje na Justiça com um pedido do nosso partido, da nossa força, para que a gente equilibre esse jogo. Não vamos aceitar intromissão indevida da Justiça Eleitoral na eleição”, afirmou Lula.
“Já há alguns dias estou percebendo que há muitas decisões tendenciosas contra a nossa candidatura. Não vamos permitir que seja fechado um canal de um deputado que está pedindo para as pessoas votarem em mim”, completou.
Janones alega censura
Nas redes sociais e em um áudio enviado no próprio canal antes de ser apagado, André Janone alega que está sofrendo “censura” e pede que apoiadores sigam engajados na defesa do canal nas redes sociais. Ele ainda diz que vai criar outro canal, desta vez no Instagram, para seguir a campanha digital.
“Eu não vou precisar falar absolutamente nada, porque eu tenho 3.350.000 testemunhas de que eu não divulguei fake news aqui, de que eu não coordenei ataque a ninguém”, afirmou o deputado. “Vocês falarão por mim, vocês serão a minha voz, vocês contarão no meio de vocês, nas rodas de conversa, no WhatsApp, vocês contarão essa história”, completou.
O canal
Criado em abril de 2026, o canal comandado por Janones obteve notoriedade após o primeiro turno das eleições e ganhou mais de 3 milhões de seguidores em uma semana. O deputado federal mineiro já havia tido uma participação relevante na campanha digital de Lula em 2022.
O grupo era usado basicamente para aumentar a mobilização de apoiadores nas redes sociais. Janones distribuía “missões” que deviam ser cumpridas pelos apoiadores nas redes, como seguir perfis e comentar temas nas redes.
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