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Wi-Fi público em aeroporto e hotel: o que pode dar errado

Por Jornal Regional MS
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O voo atrasou duas horas. A bateria está em 11%, o e-mail do cliente acabou de chegar e o plano de dados do celular já foi quase todo embora. Você abre a lista de redes e encontra duas opções: “Aeroporto_Free_WiFi” e “Aeroporto Free WiFi”.

Quase iguais. Uma tem um underline, a outra tem um espaço. Qual delas é a verdadeira?

Talvez nenhuma. E a pessoa sentada duas cadeiras ao lado, de notebook aberto e fone no ouvido, pode ser a dona de uma delas.

Esse tipo de armadilha existe, e funciona justamente porque ninguém para para pensar quando está cansado, com pressa e precisando de internet. Para entender o tamanho do risco, e também onde ele é exagerado, vale olhar com calma o que acontece entre o seu celular e o site que você quer abrir. Quem passa muito tempo viajando ou trabalhando fora de casa pode, inclusive, dar uma olhada no comparativo das melhores VPNs, que ajuda a entender quais serviços valem o preço e quais só prometem proteção.

Primeiro, o que de fato pode dar errado.

A rede gêmea: quando o Wi-Fi é uma isca

O golpe das redes parecidas tem nome: “gêmeo do mal”, ou evil twin, em inglês. O criminoso liga um aparelho pequeno, cria uma rede com nome igual ou muito parecido com o do local e espera. Quem se conecta passa a enviar tudo por dentro do equipamento dele.

O aparelho do golpista funciona como um carteiro desonesto. Ele recebe as cartas, abre, copia o que interessa, fecha de novo e entrega ao destino. Você nem percebe o atraso.

O que ele consegue ver depende de como o site ou o aplicativo protege a conversa. É aí que muita gente se confunde, e o assunto merece a próxima seção.

O cadeado do navegador resolve?

Em parte. Hoje, a maioria dos sites usa HTTPS (o cadeado ao lado do endereço), que embaralha o conteúdo da conversa. Se um criminoso intercepta uma visita ao seu banco, ele não lê a senha digitada como se fosse um texto aberto. Isso diminuiu bastante o perigo em comparação com alguns anos atrás.

Só que o cadeado não conta a história inteira. Ele não impede que:

  • você caia numa página falsa com cadeado e tudo, mas com um endereço levemente diferente do verdadeiro;
  • o dono da rede veja quais sites você visita, mesmo sem ler o que faz dentro deles;
  • aplicativos antigos ou mal feitos enviem dados sem a proteção adequada;
  • um aviso falso de “atualização obrigatória” leve você a baixar um programa malicioso.

Ou seja, o risco mudou de lugar. Saiu um pouco da interceptação direta e foi mais para o engano: páginas falsas, avisos fabricados e pedidos de dados no momento errado.

A página de login que pede demais

Quase todo Wi-Fi de hotel e aeroporto manda você para uma página antes de liberar a internet. Ela pede nome, e-mail, número de quarto, às vezes CPF ou telefone. Esse tipo de tela se chama portal cativo, e é totalmente normal.

O problema é que o portal também é fácil de copiar. Num golpe comum, a página imita o visual do hotel ou da companhia aérea e pede mais do que o necessário: senha de e-mail, dados de cartão “para verificar a identidade” ou o download de um aplicativo para “liberar o acesso”.

Uma regra simples ajuda a filtrar. Para entrar em um Wi-Fi público, a rede só precisa de, no máximo, um nome, um e-mail ou um número de quarto. Se o pedido vai além, desconfie e desconecte.

Quadro rápido: onde o perigo é maior

Situação Nível de atenção Motivo
Rede sem senha, nome genérico, em aeroporto Alto Qualquer pessoa pode criar uma rede com nome igual
Wi-Fi de hotel com senha entregue no check-in Médio A senha é a mesma para todos os hóspedes
Rede de cafeteria que pede cadastro com CPF Médio a alto Dados pessoais entregues a um sistema desconhecido
Rede de convidados de um escritório conhecido Baixo a médio Costuma ter gerenciamento, mas depende da empresa
Seu próprio celular como roteador (compartilhar dados) Baixo A rede é sua, com senha que só você conhece

A tabela não é uma garantia. Serve de bússola para decidir quando vale esperar, usar os dados móveis ou reforçar a proteção.

O que a VPN faz (e o que ela não faz)

VPN é uma sigla para rede privada virtual. O nome assusta, a ideia é simples: o programa cria um túnel embaralhado entre o seu aparelho e um servidor do serviço. Quem está na mesma rede Wi-Fi vê que há dados passando, mas não consegue ler o que há dentro. De fora, o caminho parece uma estrada com os vidros fechados.

Isso resolve boa parte do problema da rede suspeita, porque mesmo o carteiro desonesto do golpe anterior só recebe um pacote lacrado.

O que a VPN não faz também importa:

  • não impede você de digitar a senha numa página falsa;
  • não elimina vírus que você baixou por conta própria;
  • não torna anônimo quem entra logado em contas pessoais;
  • não garante nada se o próprio serviço de VPN não for confiável.

Esse último ponto costuma ser ignorado. Ao usar uma VPN, você troca a confiança que teria no dono do Wi-Fi pela confiança na empresa da VPN, que passa a ver o seu tráfego. Por isso, aplicativos gratuitos e desconhecidos merecem cuidado: alguns ganham dinheiro vendendo informações de uso. Vale ler a política de privacidade e conferir se a empresa deixa claro o que guarda e o que não guarda.

Seis hábitos que quase não dão trabalho

Não precisa virar especialista para reduzir o risco. Esses cuidados cabem em qualquer viagem:

  1. Pergunte o nome da rede. No hotel, confirme na recepção. No aeroporto, procure placas oficiais ou o site do terminal. Não escolha só pelo nome mais bonito.
  2. Desligue a conexão automática. Celulares e notebooks costumam entrar sozinhos em redes com nomes já usados antes. Um golpista pode aproveitar isso copiando o nome de uma rede comum.
  3. Deixe o banco para os dados móveis. Transferências, Pix e acesso a contas importantes funcionam melhor no 4G ou 5G. A rede do celular é bem mais difícil de ser interceptada por um desconhecido na sala de espera.
  4. Desative o compartilhamento de arquivos e de impressoras. No computador, a opção de “descoberta de rede” deve ficar desligada em redes públicas.
  5. Mantenha o sistema e os aplicativos atualizados. Muitas invasões aproveitam falhas que já foram corrigidas pelos fabricantes, mas que continuam abertas em aparelhos que não atualizaram.
  6. Saia das contas e esqueça a rede ao terminar. O celular lembra da rede e tenta voltar a ela. Esquecer a conexão evita que ele se junte sozinho no futuro.

Dúvidas que aparecem no balcão do hotel

Quem trabalha em viagem costuma perguntar se vale a pena pagar pelo Wi-Fi “premium” do aeroporto ou do hotel. Pagar não torna a rede automaticamente mais segura. Muitas vezes a diferença está na velocidade, não na proteção.

Outra pergunta frequente: “E se eu só abrir redes sociais e notícias?” O risco diminui, mas não desaparece. Contas de redes sociais podem ser sequestradas, e tokens de login guardados no navegador podem ser alvo de ataques mais elaborados. O mínimo é manter a verificação em duas etapas ligada.

E o famoso “só uso o Wi-Fi para ver o horário do voo”? Aí o perigo é pequeno de verdade. Ver o cartão de embarque ou uma previsão do tempo não envolve dado delicado. Basta evitar o que não faz falta no momento.

Voltando ao portão de embarque

Reveja a cena do começo. Duas redes quase idênticas, a bateria no fim e o e-mail do cliente na tela.

Agora existe um roteiro. Você confere o nome da rede nas placas do aeroporto, ou desiste dela e usa o celular como roteador. Se precisar mesmo da rede aberta, liga a VPN antes de abrir o e-mail. Deixa o banco para depois, no 5G, de preferência longe do olhar de quem está ao lado.

A internet gratuita nunca é de graça de verdade. Às vezes o preço é só um cadastro. Às vezes é muito mais, e o aviso só vem quando a fatura chega.