{"id":3929,"date":"2025-09-09T15:27:42","date_gmt":"2025-09-09T18:27:42","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalregionalms.com.br\/?p=3929"},"modified":"2025-09-09T15:27:42","modified_gmt":"2025-09-09T18:27:42","slug":"combate-a-gripe-aviaria-depende-de-articulacao-e-abordagem-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalregionalms.com.br\/?p=3929","title":{"rendered":"Combate \u00e0 gripe avi\u00e1ria depende de articula\u00e7\u00e3o e abordagem integral"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p><a class=\"\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2025-09\/combate-gripe-aviaria-depende-de-articulacao-e-abordagem-integral\"><br \/>\n                    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.jsdelivr.net\/gh\/sergiosdlima\/assets-ebc@1.0.0\/abr\/assets\/images\/logo-agenciabrasil.svg\" alt=\"Logo Ag\u00eancia Brasil\"><br \/>\n\t\t\t\t<\/a><\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) divulga esta semana, <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2025-09\/evento-mundial-discute-novas-estrategias-de-combate-gripe-aviaria\" target=\"_blank\">durante um evento em Foz do Igua\u00e7u<\/a>, no Paran\u00e1, a nova Estrat\u00e9gia Global 2024\u20132033 para a Preven\u00e7\u00e3o e o Controle da Influenza Avi\u00e1ria de Alta Patogenicidade (IAAP), nome oficial da gripe avi\u00e1ria. Desde 2020, os registros da doen\u00e7a t\u00eam aumentado em todo o mundo, somando quase 17 mil surtos, que vitimaram milh\u00f5es de animais. Na Am\u00e9rica Latina, os surtos se tornaram mais frequentes a partir de 2022, e j\u00e1 s\u00e3o cerca de 2,5 mil.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1657840&#038;o=rss\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1657840&#038;o=rss\"><\/p>\n<p>A doen\u00e7a \u00e9 altamente infecciosa e mortal entre aves, por isso, seu controle demanda o abate de todos os animais sob suspeita de infec\u00e7\u00e3o, entre outras medidas sanit\u00e1rias, o que evidencia o alto custo para a produ\u00e7\u00e3o animal.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<h3>Not\u00edcias relacionadas:<\/h3>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2025-09\/evento-mundial-discute-novas-estrategias-de-combate-gripe-aviaria\">Evento mundial discute novas estrat\u00e9gias de combate \u00e0 gripe avi\u00e1ria.<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/economia\/noticia\/2025-09\/uniao-europeia-reconhece-brasil-como-livre-de-gripe-aviaria\">Uni\u00e3o Europeia reconhece o Brasil como livre de gripe avi\u00e1ria.<\/a><\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2025-05\/fao-caso-de-gripe-aviaria-no-brasil-marca-nova-etapa-do-virus\">FAO: caso de gripe avi\u00e1ria no Brasil marca nova etapa do v\u00edrus.<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>A gripe avi\u00e1ria tamb\u00e9m pode contaminar outras esp\u00e9cies. Apesar dos casos em humanos serem raros, o risco de morte \u00e9 alto, e especialistas alertam que muta\u00e7\u00f5es no v\u00edrus, que possibilitem sua transmiss\u00e3o entre humanos, podem fazer com que a doen\u00e7a se torne pand\u00eamica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.whatsapp.com\/channel\/0029VaoRTgrInlqYLSk59B2M\" target=\"_blank\">>> Siga o canal da <strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>no WhatsApp<\/a><\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, o oficial regional de Sa\u00fade e Produ\u00e7\u00e3o Animal para Am\u00e9rica Latina e o Caribe da FAO, Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez, adianta alguns pontos da nova estrat\u00e9gia global e comenta o cen\u00e1rio atual da doen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea pode adiantar alguns pontos dessa estrat\u00e9gia que ser\u00e1 divulgada?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: Essa estrat\u00e9gia busca gerar guias sobre como enfrentar a doen\u00e7a e, sobretudo, como preveni-la de maneira colaborativa sob o enfoque &#8216;uma s\u00f3 sa\u00fade&#8217;. O principal objetivo do evento \u00e9 socializar, aprimorar essa estrat\u00e9gia e torn\u00e1-la operacional, por isso estamos no Paran\u00e1, em uma zona altamente produtiva. A estrat\u00e9gia apresenta linhas t\u00e9cnicas concretas para monitorar o risco e atuar baseado nessa avalia\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o primeiro ponto. O segundo ponto \u00e9 a import\u00e2ncia do diagn\u00f3stico laboratorial, que os laborat\u00f3rios estejam preparados para atuar quando for necess\u00e1rio. Terceiro: como promover uma colabora\u00e7\u00e3o intersetorial. Ou seja, que apenas o servi\u00e7o veterin\u00e1rio atue, mas tamb\u00e9m os \u00f3rg\u00e3os de meio ambiente e de sa\u00fade. Tamb\u00e9m vamos dar \u00eanfase \u00e0 biosseguran\u00e7a, que consiste em boas pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o, para prevenir a entrada do v\u00edrus nas unidades de produ\u00e7\u00e3o ou o contato com os animais. Outro tema muito importante que vamos discutir \u00e9 como melhorar a estrat\u00e9gia de vacina\u00e7\u00e3o. A FAO n\u00e3o determina &#8216;voc\u00ea vacina&#8217; ou &#8216;voc\u00ea n\u00e3o vacina&#8217;, mas, em conjunto com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, fornece diretrizes sobre como proceder e como obter o maior benef\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o. Em seguida, vem a necessidade de criar e continuar promovendo capacita\u00e7\u00e3o, tanto para o pessoal t\u00e9cnico dos servi\u00e7os sanit\u00e1rios, quanto para os produtores e para a comunidade em geral. E, por fim, favorecer a articula\u00e7\u00e3o entre o setor p\u00fablico, o setor privado, e a academia, para que seja gerado conhecimento \u00fatil para toda a cadeia de valor, n\u00e3o somente para a produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para a transforma\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria aliment\u00edcia e, sobretudo, para os consumidores.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea citou a import\u00e2ncia da articula\u00e7\u00e3o. Em n\u00edvel global, a desigualdade entre pa\u00edses atrapalha, considerando que h\u00e1 pa\u00edses com sistemas bem estruturados e outros com menor capacidade de vigil\u00e2ncia? \u00c9 poss\u00edvel nivelar de alguma forma?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: Um fator important\u00edssimo a se considerar \u00e9 a diferen\u00e7a entre pa\u00edses exportadores e pa\u00edses n\u00e3o exportadores. O pa\u00eds que exporta j\u00e1 tem uma exig\u00eancia maior do mercado para aprimorar sua capacidade de vigil\u00e2ncia, de biosseguran\u00e7a, etc. Na FAO, n\u00f3s fazemos uma an\u00e1lise regional. Eu, por exemplo, estou encarregado da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, e nessa regi\u00e3o, n\u00f3s temos uma grande variedade de pa\u00edses e, portanto, as suas capacidades tamb\u00e9m s\u00e3o variadas. Por isso, n\u00f3s fomentamos o trabalho regional. Se algo afeta um pa\u00eds vizinho, muito provavelmente pode chegar at\u00e9 mim, ainda mais no caso de doen\u00e7as virais como a influenza avi\u00e1ria, que pode passar de um territ\u00f3rio a outro atrav\u00e9s de aves silvestres. N\u00f3s j\u00e1 temos redes regionais que trabalham o problema de maneira integrada e colaborativa, especialmente com os pa\u00edses que t\u00eam menor capacidade. Dou um exemplo. Existe a Resudia, a Rede Sul-Americana de Luta contra a Influenza Avi\u00e1ria. \u00c9 uma rede de pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul que trabalha em conjunto, por exemplo, no alerta precoce e no diagn\u00f3stico laboratorial. O centro principal de a\u00e7\u00e3o da Resudia \u00e9 o Laborat\u00f3rio Federal de Diagn\u00f3stico Agropecu\u00e1rio, em Campinas, em S\u00e3o Paulo, que serve como refer\u00eancia para todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, tanto para melhorar suas capacidades diagn\u00f3sticas quanto para confirmar resultados de influenza avi\u00e1ria. Essa rede colabora com pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam dinheiro para comprar reagentes, que n\u00e3o possuem protocolos laboratoriais padronizados e, dessa forma, conseguimos, ou pelo menos facilitamos, que os pa\u00edses com menor capacidade possam se beneficiar daqueles que s\u00e3o refer\u00eancia na regi\u00e3o, como Brasil, Uruguai e Chile, que t\u00eam sistemas de vigil\u00e2ncia mais sofisticados e especializados para este tipo de risco. Assim, fazemos com que o restante dos pa\u00edses tamb\u00e9m se beneficie deles, tanto no aspecto da capacita\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de longo prazo, quanto na resposta imediata a emerg\u00eancias. Quando a emerg\u00eancia chega, a rede \u00e9 ativada e esse processo de resposta \u00e9 facilitado.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O Brasil, ent\u00e3o, tem um papel de protagonismo na regi\u00e3o, certo?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: Definitivamente, temos v\u00e1rias frentes de a\u00e7\u00e3o com o Brasil. Desde 2021, estamos trabalhando com o Comit\u00ea Veterin\u00e1rio Permanente do Cone Sul, que re\u00fane os servi\u00e7os veterin\u00e1rios de seis pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, que se juntam e fazem o manejo colaborativo de sua sa\u00fade animal. E, nesse momento, \u00e9 importante mencionar que o Brasil ocupa a presid\u00eancia pro tempore do comit\u00ea, e est\u00e1 liderando o tema da prepara\u00e7\u00e3o para emerg\u00eancias sanit\u00e1rias com foco nas doen\u00e7as priorit\u00e1rias da regi\u00e3o. Uma delas \u00e9 a influenza avi\u00e1ria. Dessa forma, a colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas t\u00e9cnica, como no apoio laboratorial, na vigil\u00e2ncia ou no fornecimento de reagentes, mas tamb\u00e9m em n\u00edvel de coordena\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a regional. Isso \u00e9 algo que o Brasil definitivamente exerce, um papel de lideran\u00e7a regional que favorece o trabalho conjunto e a transpar\u00eancia. Algo que quero destacar \u00e9 que, quando surgiu o primeiro caso de influenza avi\u00e1ria em granjas comerciais em Montenegro [Rio Grande do Sul], o Brasil organizou imediatamente uma reuni\u00e3o virtual com todos os pa\u00edses da regi\u00e3o para informar como estava atendendo ao surto. Essa informa\u00e7\u00e3o esteve dispon\u00edvel em tempo quase real para todos os pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea mencionou a quest\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 uma medida utilizada pelo Brasil, por enquanto. Quais fatores s\u00e3o decisivos nessa decis\u00e3o sobre a vacina\u00e7\u00e3o, para que ela seja efetiva?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: O primeiro ponto a mencionar \u00e9 que o servi\u00e7o sanit\u00e1rio aposta na erradica\u00e7\u00e3o logo na entrada. N\u00e3o se parte do pressuposto de que a doen\u00e7a vai continuar circulando e que ser\u00e1 necess\u00e1rio vacinar para mant\u00ea-la sob controle. A primeira a\u00e7\u00e3o \u00e9 erradicar e controlar em granjas comerciais. O Brasil fez isso em tempo recorde, em menos de 28 dias conseguiu recuperar o status de pa\u00eds livre da doen\u00e7a. Por isso, a vacina\u00e7\u00e3o deve ser analisada com muito senso cr\u00edtico. \u00c9 uma ferramenta que pode ajudar, mas tamb\u00e9m exige maiores capacidades dos servi\u00e7os veterin\u00e1rios. Para que seja poss\u00edvel vacinar, \u00e9 preciso contar com um sistema de vigil\u00e2ncia \u00f3timo, que permita identificar casos o quanto antes, e tamb\u00e9m com um sistema de diagn\u00f3stico custoso, capaz de diferenciar as aves vacinadas das n\u00e3o vacinadas, bem como o v\u00edrus que est\u00e1 em circula\u00e7\u00e3o e o v\u00edrus presente nas aves por causa da imunidade gerada pelas vacinas. Al\u00e9m disso, ao tomar a decis\u00e3o de vacinar, os pa\u00edses precisam considerar que as popula\u00e7\u00f5es de aves dom\u00e9sticas s\u00e3o muito variadas. A produ\u00e7\u00e3o de ovos utiliza um tipo de animal, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de carne de frango utiliza outro. Assim, a decis\u00e3o deve ser tomada com base no conhecimento da popula\u00e7\u00e3o local, e somente depois de esgotadas muitas outras vias de prote\u00e7\u00e3o das aves. Essa \u00e9 justamente a situa\u00e7\u00e3o no Brasil. Aqui n\u00e3o foi necess\u00e1rio recorrer \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o, porque o problema foi controlado antes. E \u00e9 preciso avaliar se a medida realmente ter\u00e1 efeito e se produzir\u00e1 o resultado desejado, que \u00e9 manter a popula\u00e7\u00e3o livre do v\u00edrus de alta patogenicidade. Blocos como a Uni\u00e3o Europeia e os Estados Unidos ainda n\u00e3o vacinam. Continuam analisando se ser\u00e1 necess\u00e1rio, e como faz\u00ea-lo, e est\u00e3o, nesse momento, preparando seus protocolos de vacina\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 existem diretrizes globais e \u00e9 isso que n\u00f3s recomendamos, que sejam usados os padr\u00f5es globais publicados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade Animal sobre como elaborar um plano de vacina\u00e7\u00e3o eficaz e com altas chances de sucesso. Nosso papel \u00e9 garantir que esses padr\u00f5es cheguem aos pa\u00edses, para que possam ser utilizados em suas estrat\u00e9gias nacionais. Mas n\u00e3o existe uma receita \u00fanica. Essa decis\u00e3o precisa ser muito bem discutida entre o setor p\u00fablico e o setor privado.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: O aumento de casos recentes j\u00e1 permite dizer que a influenza avi\u00e1ria \u00e9 uma doen\u00e7a end\u00eamica?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: Em 2022, por volta de outubro, quando as aves normalmente migram do norte do continente para o sul, ocorreu a primeira dissemina\u00e7\u00e3o massiva de influenza avi\u00e1ria de alta patogenicidade na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. O v\u00edrus se espalhou de forma massiva, atingindo mais de 16 pa\u00edses ao mesmo tempo e isso gerou uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. Esse j\u00e1 \u00e9 um primeiro indicativo de forte presen\u00e7a do v\u00edrus na regi\u00e3o. Agora, a identifica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus em popula\u00e7\u00f5es de aves silvestres \u00e9 algo que demonstra a sensibilidade do sistema de vigil\u00e2ncia. Ou seja, o pa\u00eds est\u00e1 de fato buscando ativamente identificar a doen\u00e7a, o que \u00e9 o caso do Brasil, que tem um sistema efetivo de vigil\u00e2ncia e resposta. De fato, houve um aumento na frequ\u00eancia de casos de influenza avi\u00e1ria, observados em aves silvestres, em aves dom\u00e9sticas, em mam\u00edferos e at\u00e9 em alguns poucos humanos. Houve registros em humanos na regi\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. Mas falar em endemismo, isto \u00e9, dizer que a doen\u00e7a chegou para ficar, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. N\u00e3o h\u00e1 dados suficientes para estabelecer isso, e eu quero ser muito claro nesse ponto, o conceito de endemismo exige comprovar dois fatores importantes, a magnitude dos casos e a perman\u00eancia no territ\u00f3rio. E, at\u00e9 agora, n\u00e3o temos dados suficientes para afirmar que a influenza avi\u00e1ria \u00e9 end\u00eamica, nem mesmo no Brasil. O que sabemos \u00e9 que h\u00e1 incurs\u00f5es espor\u00e1dicas de presen\u00e7a do v\u00edrus, principalmente em aves silvestres. Mas n\u00e3o podemos falar em endemismo.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Voc\u00ea citou os casos em humanos, que s\u00e3o poucos, mas infelizmente t\u00eam uma mortalidade consider\u00e1vel. Isso gera um alerta, principalmente para os produtores e trabalhadores do setor?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: Creio que \u00e9 importante fazer um esclarecimento sobre a forma como o v\u00edrus passa das aves para os humanos, n\u00e3o \u00e9 pelo consumo. Esse \u00e9 um ponto de partida essencial e \u00e9 uma mensagem extremamente importante, porque estamos falando de duas das prote\u00ednas mais relevantes para o mundo, a carne de frango e os ovos. \u00c9 fundamental deixar muito claro que o consumo de carne de frango ou ovos devidamente preparados e cozidos n\u00e3o representa risco de infec\u00e7\u00e3o para os humanos. Isso \u00e9 important\u00edssimo para evitar problemas em um mercado t\u00e3o crucial para o mundo inteiro. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso esclarecer que os casos de infec\u00e7\u00e3o humana registrados at\u00e9 agora, alguns infelizmente letais, ocorreram por contato direto com animais infectados. O v\u00edrus ainda tem dificuldade para infectar humanos, mas demonstrou uma grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o a mam\u00edferos, como le\u00f5es-marinhos, focas e outros animais que vivem em zonas costeiras, al\u00e9m dos casos recentes identificados em vacas leiteiras nos Estados Unidos. Portanto, o v\u00edrus pode gerar recombina\u00e7\u00f5es que afetariam mam\u00edferos, incluindo os humanos.\u00a0 Felizmente, at\u00e9 agora, sua capacidade de transmiss\u00e3o para humanos ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o efetiva, da\u00ed a import\u00e2ncia de manter o estudo gen\u00f4mico e molecular desses v\u00edrus, para avaliar em que est\u00e1gio est\u00e3o e atuar de forma preventiva, caso aumente sua patogenicidade para mam\u00edferos. Quero refor\u00e7ar aqui algo que mencionei no in\u00edcio, o enfoque de \u2018uma s\u00f3 sa\u00fade\u2019, que estabelece n\u00e3o apenas a inter-rela\u00e7\u00e3o, mas a interdepend\u00eancia entre sa\u00fade veterin\u00e1ria, sa\u00fade p\u00fablica humana e sa\u00fade ambiental. Essas \u00e1reas precisam trabalhar juntas e n\u00e3o isoladas, com seus pr\u00f3prios bancos de dados e an\u00e1lises de risco separados. O chamado, portanto, \u00e9 para que as autoridades de cada uma dessas \u00e1reas fomentem o trabalho conjunto, a comunica\u00e7\u00e3o integrada e a produ\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias compartilhadas, a fim de lidar da melhor forma poss\u00edvel com o potencial zoon\u00f3tico do v\u00edrus, isto \u00e9, a sua capacidade, que j\u00e1 conhecemos, de infectar humanos. Por fim, quero destacar um conceito muito importante, a biosseguran\u00e7a. Produtores, trabalhadores e qualquer pessoa em contato com aves precisam ter muito claras as medidas de biosseguran\u00e7a. S\u00e3o boas pr\u00e1ticas que reduzem o risco, que pode ser mitigado, com as devidas barreiras f\u00edsicas e n\u00e3o f\u00edsicas entre animais e pessoas, diminuindo assim as chances de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: E com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infec\u00e7\u00e3o de outros mam\u00edferos? H\u00e1 risco de que a doen\u00e7a tamb\u00e9m tenha impacto sobre outras produ\u00e7\u00f5es, como su\u00ednos e bovinos?<\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9s Gonz\u00e1lez<\/strong>: \u00c9 preciso ter muito cuidado com o que est\u00e1 acontecendo em rela\u00e7\u00e3o aos su\u00ednos, para entender como o v\u00edrus est\u00e1 se recombinando para conseguir infectar mam\u00edferos de maneira mais r\u00e1pida. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada em particular que envolva a produ\u00e7\u00e3o de su\u00ednos neste momento. O que deve ser destacado \u00e9 que a vigil\u00e2ncia \u00e9 a chave. Ou seja, o que o Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil j\u00e1 est\u00e1 fazendo, acompanhar caso a caso, confirmar rapidamente e realizar a sequencia\u00e7\u00e3o molecular. H\u00e1 30 anos n\u00e3o t\u00ednhamos, por exemplo, a possibilidade de conhecer o genoma do v\u00edrus, mas hoje, sim. O laborat\u00f3rio de Campinas faz isso todos os dias. Cada vez que chega uma amostra, consegue identificar o v\u00edrus, analisar o genoma e verificar se estamos falando do mesmo v\u00edrus, de uma muta\u00e7\u00e3o ou de algo novo. Assim, pode-se atuar o quanto antes para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o, tanto em aves quanto em mam\u00edferos. Um risco que n\u00f3s tamb\u00e9m monitoramos, na FAO e na nossa equipe de trabalho, \u00e9 o impacto na biodiversidade. H\u00e1 pa\u00edses que vivem do turismo e da observa\u00e7\u00e3o de animais marinhos, com pessoas que visitam praias e zonas costeiras. Esse impacto potencial sobre a biodiversidade tamb\u00e9m \u00e9 monitorado, j\u00e1 que as popula\u00e7\u00f5es de mam\u00edferos silvestres afetadas podem sofrer redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de indiv\u00edduos e na fauna nativa de um pa\u00eds. Por isso, \u00e9 essencial manter uma vis\u00e3o hol\u00edstica do problema, que n\u00e3o envolve apenas a sa\u00fade, pode afetar a alimenta\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a alimentar, a biodiversidade e a fauna silvestre. Nesse ponto, volto a mencionar a import\u00e2ncia da abordagem de \u2018uma s\u00f3 sa\u00fade\u2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO) divulga esta semana, durante um evento em Foz do Igua\u00e7u, no Paran\u00e1, a nova Estrat\u00e9gia Global 2024\u20132033 para a Preven\u00e7\u00e3o e o Controle da Influenza Avi\u00e1ria de Alta Patogenicidade (IAAP), nome oficial da gripe avi\u00e1ria. 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