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Fim da escala 6×1: quem vai pagar a conta da redução da jornada de trabalho?

Por Jornal Regional MS
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A mudança será implementada gradualmente: 42 horas a partir de dezembro de 2026 e 40 horas em dezembro de 2027.

Com mais folgas e menos horas trabalhadas, mudança promete melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, mas pode elevar custos das empresas e pressionar preços. Especialista analisa os impactos para empresários e trabalhadores.

O fim da escala 6×1 já é realidade no Brasil. Com a promulgação da Emenda Constitucional nº 141, em outubro de 2026, o país iniciou a transição para uma jornada de 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial. A mudança será implementada gradualmente: 42 horas a partir de dezembro de 2026 e 40 horas em dezembro de 2027.

Embora represente uma conquista importante para os trabalhadores, a medida também levanta preocupações sobre custos empresariais, inflação e geração de empregos.

Para o contador tributarista e professor universitário André Charone, especialista em finanças e gestão empresarial, a principal questão está em como a economia absorverá os custos dessa transformação.

“O trabalhador ganha mais tempo para descansar e conviver com a família, o que é extremamente positivo. Mas as empresas continuarão precisando produzir, vender e atender seus clientes. Se a quantidade de horas disponíveis diminui, será necessário compensar essa diferença de alguma forma, seja com novas contratações, ganhos de produtividade ou aumento dos custos”, explica.

Quanto vai custar para as empresas?

Na prática, a redução da jornada de 44 para 40 horas, sem alteração salarial, representa um aumento de 10% no valor da hora trabalhada.

Imagine uma empresa com dez funcionários. Atualmente, eles trabalham juntos 440 horas semanais. Com a nova jornada, passarão a trabalhar 400 horas. Para manter o mesmo volume de horas, a empresa precisaria aumentar sua produtividade ou contratar mais um profissional, por exemplo.

Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o impacto adicional sobre os custos com empregados formais poderá chegar a R$ 267 bilhões anuais. Já o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima aumento médio de 7,84% no custo do trabalho, mas aponta que o efeito sobre os custos operacionais totais seria inferior a 1% em setores como comércio e indústria.

Charone alerta que os pequenos negócios podem enfrentar dificuldades maiores.

“Uma grande empresa pode ter estrutura para reorganizar equipes e investir em tecnologia. Já um pequeno restaurante, farmácia ou comércio de bairro muitas vezes trabalha com margens apertadas. Qualquer aumento de despesa pode comprometer uma parcela significativa do lucro”, afirma.

O consumidor pode acabar pagando mais?

Outro possível efeito é o aumento dos preços. Empresas que não conseguirem absorver os custos adicionais poderão repassá-los, ao menos parcialmente, aos consumidores.

Em uma simulação, a CNI estimou elevação média de 6,2% nos preços ao consumidor com a redução da jornada para 40 horas. O resultado, entretanto, não representa uma previsão garantida de inflação, pois depende da produtividade e das estratégias de adaptação de cada setor.

“Existe um risco de parte dessa conta chegar ao consumidor. Se os custos de restaurantes, supermercados e prestadores de serviços aumentarem, isso poderá pressionar os preços. O problema é que o próprio trabalhador beneficiado pela redução da jornada também estará sujeito a esse encarecimento”, observa Charone.

E o que muda no bolso do trabalhador?

Embora o salário mensal permaneça igual, o trabalhador passará a receber proporcionalmente mais por hora.

Um empregado que ganha R$ 2.200 por mês, por exemplo, terá seu salário-hora elevado de R$ 10 para R$ 11, considerando a redução do divisor mensal de 220 para 200 horas.

Além do descanso adicional, também poderá economizar em deslocamentos e alimentação. Por outro lado, o ganho de poder de compra dependerá do comportamento dos preços.

O impacto sobre o emprego também é incerto: enquanto algumas empresas poderão contratar para completar suas escalas, outras poderão acelerar a automação, reduzir horários de funcionamento ou rever seus quadros de funcionários.

Para o especialista, o momento exige planejamento.

“As empresas precisam revisar escalas, projetar o fluxo de caixa, avaliar contratações e investir em produtividade. Quem deixar para se adaptar na última hora poderá enfrentar dificuldades financeiras e trabalhistas”, recomenda.

Charone conclui que o desafio vai além da redução das horas de trabalho.

“O Brasil precisa buscar um equilíbrio entre qualidade de vida e sustentabilidade econômica. Trabalhar menos pode ser um avanço importante, desde que essa transformação não comprometa a geração de empregos, a sobrevivência dos pequenos negócios e o poder de compra da população.”

Sobre André Charone

André Charone é contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais pela Must University, na Flórida (EUA), com atuação nas áreas de contabilidade, finanças e consultoria empresarial. Possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV, em São Paulo, além de certificações internacionais pela Universidade de Harvard, em Massachusetts, e pelo Disney Institute, na Flórida.

É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional. 

Seu mais recente trabalho é o livro “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional. 

Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/ 

e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1 

Instagram: @andrecharone

 Imagem André: Divulgação / Consultório da Fama