Notícias

Depois de enfrentar um câncer metastático, atleta fala sobre vulnerabilidade e a importância de cuidar da saúde mental

Por Jornal Regional MS
Compartilhe:

Trainer comportamental e atleta de endurance, César Aarão compartilha como o acompanhamento psicológico e a rede de apoio fizeram parte de sua jornada e ampliaram sua compreensão sobre saúde integral

Durante muito tempo, a força esteve associada à capacidade de suportar pressão, superar obstáculos e seguir em frente mesmo diante das dificuldades. No esporte de endurance, essa lógica faz parte da preparação para provas que exigem resistência física e mental. Mas o que acontece quando o desafio não pode ser vencido apenas com disciplina, planejamento ou força de vontade?

Foi essa pergunta que ganhou um novo significado na vida de César Aarão, trainer comportamental e atleta de endurance, após receber o diagnóstico de melanoma metastático, em setembro de 2023. Aos 50 anos, ele precisou reorganizar a rotina, lidar com as incertezas do tratamento e rever a maneira como encarava a própria vulnerabilidade.

A notícia chegou um dia depois de completar uma prova de Ironman 70.3. Habituado a estabelecer metas e enfrentar desafios físicos, César se viu diante de uma experiência que exigia outro tipo de preparo. O tratamento envolvia o acompanhamento médico, mas também trazia questões emocionais que não poderiam ser resolvidas apenas com desempenho ou disciplina.

Nesse processo, o acompanhamento psicológico e a rede de apoio tiveram papel importante. Reconhecer a necessidade de ajuda, falar sobre sentimentos e aceitar o suporte de outras pessoas passaram a fazer parte da experiência de enfrentamento da doença.

A trajetória de César ajuda a colocar em discussão uma questão que vai além do diagnóstico de câncer: a dificuldade que muitas pessoas, especialmente homens que cresceram sob a expectativa de demonstrar força o tempo todo, encontram para reconhecer o sofrimento emocional e buscar apoio.

A ideia de que é preciso resolver tudo sozinho pode transformar a resistência em isolamento. Em momentos de crise, admitir medo, insegurança ou cansaço não significa abandonar a luta. Pode ser justamente o que permite atravessar uma situação difícil com mais recursos e suporte.

Para César, a experiência também ampliou o significado de saúde. O cuidado não se resume ao funcionamento do corpo ou à capacidade de manter uma rotina produtiva. Envolve as dimensões física, emocional e social, além daquilo que cada pessoa encontra como fonte de sentido e sustentação durante períodos de incerteza.

A vivência também trouxe uma nova perspectiva sobre a importância de pedir ajuda. Em vez de tentar sustentar sozinho todas as dificuldades, reconhecer os próprios limites permite abrir espaço para o apoio de familiares, amigos e profissionais especializados. O cuidado emocional, nesse contexto, não é secundário ao tratamento físico, mas parte da atenção integral à saúde.

Depois do tratamento, César retomou desafios esportivos e chegou à Maratona de Nova York. A conquista representa não apenas o retorno às provas, mas também uma nova compreensão sobre o que significa seguir em frente, sem ignorar os limites e sem transformar a necessidade de apoio em motivo de vergonha.

Ao compartilhar sua história em palestras e conversas, César busca contribuir para ampliar o debate sobre saúde mental, especialmente em contextos nos quais a vulnerabilidade ainda é vista como sinal de fraqueza. Sua experiência pessoal oferece uma perspectiva sobre a importância de reconhecer o sofrimento, buscar acompanhamento especializado e construir uma rede de apoio.

Falar sobre saúde mental, nesse contexto, não significa esperar que uma crise aconteça para procurar ajuda. Significa compreender que o cuidado emocional também merece espaço na rotina e que pedir apoio pode ser parte do caminho, tanto nos momentos de adoecimento quanto diante dos desafios cotidianos.

Em dezembro, Cesar lança o livro Depois da Linha de Chegada: memórias de uma travessia entre performance, doença e presença, no qual compartilha sua trajetória e reflete sobre a relação entre desempenho físico, adoecimento e transformação pessoal.

Fonte: Agencia Viva