Atualmente, Mato Grosso do Sul também sofre os impactos da expansão das facções criminosas, principalmente em razão da disputa violenta pelo controle das rotas do tráfico na região de fronteira.
A narcocultura é o conjunto de símbolos, valores, comportamentos, linguagens e manifestações artísticas que glamourizam ou normalizam o estilo de vida do tráfico de drogas e do crime organizado. O fenômeno ganhou força, especialmente a partir dos anos 2000, em países como México e Colômbia, impulsionado pela influência dos grandes cartéis.
Atualmente, Mato Grosso do Sul também sofre os impactos da expansão das facções criminosas, principalmente em razão da disputa violenta pelo controle das rotas do tráfico na região de fronteira.
Recentemente, cidades da região norte do Estado foram alvo de operações policiais para impedir a realização de festas comunitárias que distribuiriam brinquedos e doces para crianças. Embora apresentadas como ações sociais, havia suspeitas de que essas iniciativas fossem utilizadas pelas facções para conquistar a confiança dos moradores e aliciar crianças e adolescentes.
Para as organizações criminosas, não basta dominar territórios, demonstrar poder bélico ou exercer influência dentro do sistema prisional. Elas também procuram impor obediência pelo medo e transmitir a ideia de que o Estado não consegue estar presente em todos os espaços da vida em sociedade.
Uma das características da narcocultura é associar o crime à ascensão social, exibindo carros de luxo, roupas de marca, joias e dinheiro como símbolos de poder, sucesso e prestígio. Essa imagem sedutora é utilizada para atrair, principalmente, jovens de comunidades socialmente vulneráveis, que podem enxergar no crime uma falsa oportunidade de reconhecimento e melhoria de vida.
A violência também é utilizada como instrumento de intimidação coletiva. Um exemplo recente foi registrado em Dourados, onde um homicídio foi filmado e divulgado nas redes sociais, ampliando o alcance da violência e a mensagem de medo que os criminosos pretendem transmitir.
Outra estratégia consiste em difundir narrativas que deslegitimam a atividade policial e alimentam o preconceito contra as forças de segurança. Por isso, é fundamental distinguir críticas legítimas à atuação do Estado da utilização deliberada da comunicação para favorecer organizações criminosas.
A liberdade de expressão e a criação artística são direitos constitucionais que devem ser respeitados. Entretanto, esses direitos não afastam, por si só, a possibilidade de responsabilização quando uma manifestação ultrapassa os limites legais e configura uma conduta criminosa. O debate sobre determinadas vertentes do chamado funk ostentação, por exemplo, precisa considerar o conteúdo concreto de cada manifestação, sem generalizações e sem confundir expressão artística com apologia ao crime, prevista no artigo 287 do Código Penal.
Em uma sociedade cada vez mais conectada, na qual as redes sociais influenciam comportamentos e percepções, as forças de segurança precisam ir além do policiamento tradicional. É necessário comunicar-se com transparência, combater a desinformação e construir relações de confiança com a população, especialmente no ambiente digital.
É importante ressaltar que a violência não é um fenômeno isolado. As experiências de prevenção e enfrentamento demonstram a importância de ações integradas, contínuas e coordenadas, com participação efetiva dos municípios.
O primeiro passo é realizar um diagnóstico consistente, apoiado pela inteligência policial, para identificar a atuação das facções, seus mecanismos de influência, as áreas vulneráveis e as estratégias utilizadas para conquistar espaço na comunidade.
A partir desse diagnóstico, é fundamental integrar órgãos públicos e entidades da sociedade civil, como os Conselhos Comunitários de Segurança, a OAB, os Conselhos Municipais Antidrogas, os Conselhos Tutelares, o Rotary Club, o Lions Club e a Maçonaria, entre outros. Essa articulação deve unir segurança pública, educação, assistência social, cultura, esporte e proteção de crianças e adolescentes.
É no município que muitas políticas de prevenção podem chegar mais perto das famílias, identificar situações de risco e oferecer alternativas concretas aos jovens antes que sejam atraídos pelo crime.
Por fim, o fortalecimento da filosofia de polícia comunitária, já adotada pelas forças estaduais de segurança, é essencial para aproximar policiais e cidadãos, ampliar a cooperação e recuperar a confiança da população.
Combater a narcocultura exige mais do que enfrentar criminosos: exige impedir que o crime seja visto como exemplo de sucesso, fonte de poder ou caminho para o reconhecimento social. Para isso, o Estado precisa estar presente, a sociedade precisa participar e os jovens precisam encontrar oportunidades reais de construir um futuro longe da violência.
Esse é um compromisso de todos com a segurança pública, a cidadania e a proteção das próximas gerações.
