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Desafios fortalecem corpo e alma, por Wilson Aquino

Por Jornal Regional MS
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A vida é uma batalha constante do indivíduo contra os obstáculos do caminho, na busca de objetivos que podem ser temporários ou permanentes. Felizes os perseverantes que não desistem diante das dificuldades, porque a conquista, para quem insiste, quase sempre chega. Mas há uma verdade mais profunda nessa constatação, e é ela que merece ser dita com clareza: a provação não apenas antecede a vitória, ela fabrica o vencedor. Ninguém atravessa uma dificuldade real e sai igual ao que entrou. A alma humana não nasce pronta, como uma peça acabada de fábrica; ela se forma no atrito, no esforço, na resistência.

Para entender isso, basta olhar o corpo. O músculo não cresce no repouso, cresce na carga. É o esforço repetido que rompe as fibras e obriga o organismo a reconstruí-las mais fortes. O osso, submetido a impacto, torna-se mais denso. O sistema imunológico só amadurece em contato com o mundo, com os germes, com as pequenas batalhas do dia a dia. A natureza tem uma lei silenciosa e implacável: aquilo que é poupado, enfraquece; aquilo que é desafiado, se fortalece.

A mesma lei governa as árvores. Uma árvore cultivada em estufa, protegida do vento, cresce depressa e alta, mas produz madeira frágil, e tomba ao primeiro vendaval. A árvore que enfrenta o vento todos os dias desenvolve fibras mais densas, raízes mais profundas, tronco capaz de vergar sem quebrar. O vento que a castiga é o mesmo que a sustenta de pé. É exatamente essa a imagem que as pernas do atleta oferecem: as pernas magras do fundista não carregam a mesma história das pernas musculosas do corredor de obstáculos. Cada músculo ali é o registro de uma dificuldade vencida.

Vale estender a analogia. O fundista corre em terreno plano e previsível; o corredor de obstáculos treina o corpo para o imprevisto. A vida contemporânea, ao contrário do que promete, não é plana. Ela é um percurso cheio de cercas, valas e barreiras que mudam de lugar. Quem só aprendeu a correr em pista lisa chega despreparado à primeira cerca.

Nunca foi tão necessário preparar-se para o obstáculo. Vivemos um tempo de transformação acelerada, em que a tecnologia avança a passos largos, substitui ofícios inteiros, obriga profissionais experientes a se reinventarem e transforma em obsoleta, em poucos anos, uma habilidade que parecia eterna. A inteligência artificial, a automação e a digitalização dos serviços redesenham o mercado de trabalho com uma velocidade que nenhuma geração anterior conheceu. Diante disso, a pergunta deixou de ser se surgirão dificuldades, porque elas certamente surgirão, e passou a ser quem estará preparado para atravessá-las.

Há, porém, um paradoxo cruel no nosso tempo. Quanto mais conforto conquistamos, menos tolerância desenvolvemos ao desconforto. Criamos uma cultura que promete uma vida sem atrito, sem espera, sem frustração, em que tudo se resolve com um toque na tela. O resultado é uma geração que sabe pedir, mas não sabe esperar; que sabe conquistar rápido, mas não sabe perder; que confunde bem-estar com ausência de dor. Os consultórios de psicologia e psiquiatria, especialmente entre os jovens, registram o preço dessa conta. A dificuldade não aumentou; a nossa resistência a ela é que diminuiu.

Por isso o aprendizado precisa começar cedo, e começa em casa. Cabe aos pais ensinar aos pequenos, desde os primeiros anos, que a dificuldade faz parte do brincar e do viver. Ensiná-los a raciocinar, a tentar de novo, a buscar alternativas diante de um brinquedo que não encaixa, de um jogo que não se ganha, de uma tarefa que parece impossível. O pai ou a mãe que toma a frente e resolve tudo pela criança, acreditando protegê-la, na verdade lhe rouba a lição mais valiosa da infância: a descoberta de que ela é capaz.

A superproteção é uma forma sutil de crueldade. Ela tem a aparência do amor, e é justamente por isso que engana. A criança que nunca falhou não aprende a lidar com o fracasso. O adolescente que nunca foi contrariado chega à vida adulta sem defesas emocionais. O jovem que nunca precisou esperar por nada tende a desmoronar diante da primeira negativa. Há um nome para esse fenômeno em outros países, e ele já tem nome também entre nós: a geração que não sai de casa, que não assume riscos, que adia indefinidamente a vida adulta porque nunca foi preparada para o atrito do mundo. Ensinar a enfrentar a dificuldade é o maior presente que um pai pode dar a um filho, maior do que qualquer facilidade material.

A história, brasileira e mundial, está cheia de provas de que a provação, quando enfrentada com sentido, forja o caráter. Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer o que ela é capaz de produzir quando encontra uma pessoa disposta a não se render.

Comecemos por casa. Luís Gama nasceu livre em Salvador, em 1830, filho de uma africana e de um português, e foi vendido como escravo pelo próprio pai, aos dez anos, para pagar dívidas de jogo. Analfabeto até os dezessete, conquistou a própria liberdade, aprendeu a ler e a escrever e, impedido de estudar Direito por ser negro, tornou-se advogado autodidata. Usando as brechas da lei, libertou mais de quinhentas pessoas escravizadas. Só em 2015, cento e trinta e três anos depois de sua morte, a Ordem dos Advogados do Brasil lhe reconheceu o título que a cor da pele havia negado. Nenhuma porta se abriu para ele, e ele acabou atravessando as paredes.

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, nasceu por volta de 1738, filho de um arquiteto português com uma mulher escravizada. A partir de 1777, uma doença degenerativa que a medicina até hoje discute foi deformando seu corpo e destruindo seus membros, sobretudo as mãos. Perdeu os dedos dos pés e passou a andar de joelhos. Conta-se que amarrava as ferramentas aos pulsos para continuar esculpindo. Foi assim, mutilado e sofrendo dores contínuas, que produziu os profetas de Congonhas e as igrejas que fizeram dele o maior nome do barroco mineiro. A doença lhe tirou as mãos, mas não conseguiu tirar-lhe a obra.

Carolina Maria de Jesus teve dois anos de escola. Negra, pobre, mãe de três filhos, sobrevivia como catadora de papel na favela do Canindé, em São Paulo, e escrevia em cadernos que encontrava no lixo. Desses cadernos nasceu Quarto de Despejo, publicado em 1960, traduzido para dezenas de idiomas e transformado em um dos testemunhos mais importantes da literatura brasileira. Ela não escreveu apesar da miséria, mas dentro dela, e transformou a miséria em voz.

Machado de Assis era filho de um pintor mulato e de uma portuguesa, cresceu pobre no Rio de Janeiro, sofreu com crises de epilepsia e estudou quase tudo sozinho. Tornou-se o maior escritor do país e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Chiquinha Gonzaga foi obrigada a um casamento de conveniência, separou-se quando isso ainda era escândalo e se tornou a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, além de compor a primeira marcha de carnaval. Nise da Silveira foi presa e perseguida por suas ideias, recusou-se a aplicar tratamentos violentos aos doentes mentais e criou um método que humanizou a psiquiatria brasileira. Herbert de Souza, o Betinho, hemofílico, contaminado por transfusões e depois portador do vírus da aids, organizou a maior campanha de combate à fome da história do país. Cada um deles encontrou, na própria ferida, a razão de sua luta.

No esporte, o Brasil tem uma galeria inteira de provas. Daniel Dias nasceu com má-formação congênita nos braços e na perna direita e se tornou o maior nadador paralímpico do mundo, com vinte e sete medalhas, catorze delas de ouro. Rebeca Andrade rompeu o ligamento cruzado do joelho três vezes, passou por três cirurgias reconstrutivas e, mesmo assim, se tornou a primeira brasileira a ganhar ouro olímpico na ginástica. Marta saiu de Dois Riachos, no sertão de Alagoas, para ser eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo. Pelé engraxou sapatos em Bauru antes de se tornar o maior jogador de todos os tempos. Garrincha nasceu com as pernas tortas e uma delas mais curta, e virou o maior driblador que o futebol conheceu. Vinícius Júnior saiu de São Gonçalo e enfrentou o racismo nos estádios da Europa até se transformar em símbolo mundial da luta contra a discriminação. Em todos esses casos, a limitação inicial deixou de ser um ponto final para se tornar um ponto de partida.

Fora do Brasil, os exemplos se multiplicam. Nelson Mandela passou vinte e sete anos na prisão, dezoito deles numa cela de Robben Island, e saiu de lá sem ódio, para presidir a nação que o havia encarcerado. Viktor Frankl sobreviveu a Auschwitz depois de perder a esposa, os pais e o irmão, e escreveu, a partir dessa experiência, uma das obras mais importantes do século sobre o sentido da vida. Beethoven ficou surdo e compôs, já sem ouvir, a Nona Sinfonia. Helen Keller, cega e surda desde os dezenove meses, formou-se em uma universidade que nenhuma mulher como ela havia frequentado. Frida Kahlo teve a coluna destruída em um acidente de ônibus e pintou, da cama, uma obra que atravessou o século. Stephen Hawking recebeu aos vinte e um anos o diagnóstico de uma doença degenerativa e viveu até os setenta e seis, tornando-se um dos maiores físicos da história. Malala Yousafzai levou um tiro na cabeça aos quinze anos por defender o direito das meninas de estudar e, dois anos depois, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

A lista continua. Oprah Winfrey nasceu na pobreza do Mississippi, sofreu abusos na infância e se tornou uma das mulheres mais influentes do mundo. J. K. Rowling escreveu o primeiro livro de Harry Potter sendo mãe solteira e vivendo de auxílio do governo, depois de ver o original recusado por uma dúzia de editoras. Steve Jobs foi entregue para adoção ao nascer e demitido da empresa que fundou, antes de voltar e reinventá-la. Nick Vujicic nasceu sem braços e sem pernas e se tornou palestrante em dezenas de países. Bethany Hamilton perdeu o braço esquerdo para um tubarão aos treze anos e voltou a competir no surfe. Emmanuel Ofosu Yeboah, nascido em Gana sem a tíbia da perna direita, pedalou cerca de seiscentos quilômetros pelo país para provar que a deficiência não define ninguém. Terry Fox perdeu uma perna para o câncer e correu mais de cinco mil quilômetros pelo Canadá em uma maratona que arrecada milhões até hoje. Abraham Lincoln perdeu a mãe na infância, fracassou em negócios e foi derrotado em várias eleições antes de presidir os Estados Unidos e abolir a escravidão. Ray Charles ficou cego aos sete anos e órfão aos quinze, e se tornou uma lenda da música. Andrea Bocelli perdeu a visão aos doze e se tornou um dos cantores mais ouvidos do planeta.

Mas seria ingênuo concluir que toda dor enobrece. Não enobrece. Há sofrimento que destrói, que adoece, que quebra uma pessoa para sempre. A diferença entre a provação que fortalece e a provação que aniquila depende menos do tamanho da dificuldade do que do sentido que se dá a ela e do apoio que se tem para atravessá-la. É por isso que a solidão é tão perigosa quanto o obstáculo, e que a fé, a família, os amigos e o exemplo de quem já venceu funcionam como cordas lançadas a quem está no fundo do poço.

Viktor Frankl formulou isso com precisão ao observar, nos campos de concentração, que sobreviviam com mais frequência aqueles que tinham um porquê. Quem tem uma razão para viver suporta quase qualquer como viver, dizia ele, retomando Nietzsche. O sentido é o que transforma a dor em travessia. Sem sentido, a mesma dor se transforma em naufrágio.

Os antigos já sabiam disso. Sêneca escreveu que o fogo prova o ouro e a adversidade prova os homens. Marco Aurélio, imperador e filósofo, deixou uma frase que resume a sabedoria estoica: o que impede a ação faz avançar a ação, e o que está no caminho torna-se o caminho. A sabedoria estoica não consiste em desejar a pedra, mas em compreender que a pedra é o próprio chão por onde se anda.

A tradição espiritual cristã, que alimenta a reflexão deste artigo, diz a mesma coisa com outras palavras. O apóstolo Paulo escreveu aos romanos que a tribulação produz perseverança, a perseverança produz caráter, e o caráter produz esperança. Tiago recomendou que se considerasse motivo de alegria passar por provações, porque a prova da fé gera constância. Pedro comparou a fé provada ao ouro purificado pelo fogo. E a carta aos Hebreus lembra que nenhuma disciplina parece agradável no momento, mas depois produz fruto de justiça em quem foi por ela exercitado. O que se afirma aqui não é uma apologia do sofrimento, mas o reconhecimento de que existe uma alquimia possível entre a dor e o crescimento, e que ela depende de como recebemos o que a vida nos impõe.

Há uma imagem oriental que traduz tudo isso com uma beleza difícil de superar. Chama-se kintsugi, a arte japonesa de consertar cerâmicas quebradas com ouro. Em vez de esconder as rachaduras, o artesão as realça, e a peça consertada passa a valer mais do que a peça intacta. A fratura deixa de ser defeito e se torna memória, história, identidade. É o que acontece com a alma que atravessa a provação sem se deixar destruir: as cicatrizes ficam, mas ficam douradas.

Voltemos às pernas do corredor de obstáculos. Elas são o retrato de uma verdade simples e exigente: ninguém se torna forte sem resistência, e nenhuma alma amadurece sem provação. Não devemos pedir uma vida sem dificuldades, porque essa vida não existe e, se existisse, produziria pessoas frágeis. Devemos pedir, isso sim, a força para atravessar as dificuldades que vierem, a sabedoria para encontrar sentido nelas e a companhia de quem nos estenda a mão quando as pernas fraquejarem.

E devemos, sobretudo, ensinar isso a quem vem depois de nós. Cada geração tem o dever de preparar a seguinte não para um mundo sem obstáculos, mas para um mundo cheio deles. É esse o legado que vale a pena deixar: não a facilidade, mas a capacidade de enfrentar a dificuldade. Porque a alma que atravessou a provação sem se render não se torna apenas mais forte: torna-se capaz de sustentar outras. E é isso, no fim, que dá sentido à jornada.