Casos de personalidades conhecidas chamam a atenção para a importância de reconhecer sintomas e buscar diagnóstico precoce
Amorte da atriz e cantora Lua Blanco, aos 39 anos, após enfrentar um câncer de intestino, chamou a atenção para uma doença que também pode atingir pessoas jovens. O diagnóstico de câncer intestinal foi confirmado por familiares à imprensa.
Outras personalidades também enfrentaram a doença, como o ator Chadwick Boseman, que morreu aos 43 anos, em 2020, após um câncer de cólon, e a cantora Preta Gil, que morreu aos 50 anos, em julho de 2025, após tratamento para câncer colorretal. Embora o risco aumente com a idade, esses casos ajudam a chamar a atenção para a importância de reconhecer os sintomas e procurar avaliação médica sem esperar que o quadro se agrave.
Para esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, o médico Odinilson Almeida Fonseca, da Coloproctologia do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), filiado à HU Brasil, orienta sobre sinais de alerta, fatores de risco e os caminhos para investigação e tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Uma doença que pode começar silenciosamente
O câncer colorretal é um tumor maligno que atinge o cólon e o reto, partes do intestino grosso. Mais de 90% dos casos são carcinomas, e muitos se desenvolvem a partir de pólipos, pequenas lesões na parede intestinal que podem evoluir para tumores malignos ao longo do tempo.
Um dos desafios é que a doença pode não provocar sintomas nas fases iniciais. Quando aparecem, as manifestações podem ser inespecíficas e confundidas com hemorroidas, síndrome do intestino irritável ou outras condições benignas.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Sangue vivo, escuro ou misturado às fezes;
- Mudanças persistentes ou recorrentes no hábito intestinal, como diarreia ou constipação;
- Dor ou desconforto abdominal frequente;
- Sensação de evacuação incompleta;
- Perda de peso sem causa aparente;
- Anemia, palidez, fraqueza ou cansaço persistente.
O sangramento nem sempre é visível. Em algumas situações, pequenas perdas de sangue ao longo do tempo podem provocar anemia, manifestada por fraqueza e cansaço. Tumores localizados em diferentes partes do intestino também podem produzir manifestações distintas: enquanto algumas lesões provocam sangramento oculto, outras podem causar alterações nas fezes ou no funcionamento intestinal.
Por isso, a ausência de sangue aparente não descarta um problema que precise ser investigado.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada na revista científica JAMA Network Open, que reuniu 81 estudos e dados de 24.908.126 pessoas com menos de 50 anos, identificou o sangramento retal como o sinal mais frequente entre os pacientes com câncer colorretal de início precoce, presente em 45% dos casos analisados. Dor abdominal foi registrada em 40%, e alterações do hábito intestinal, em 27%. O intervalo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico foi de 6,4 meses. Esses números descrevem pessoas que tinham a doença, não a probabilidade de alguém com esses sintomas ter câncer.
Sangramento nas fezes, anemia sem causa esclarecida ou alterações intestinais persistentes não devem ser atribuídos automaticamente a condições benignas. Mesmo quando existe suspeita de hemorroidas, a avaliação médica é importante para determinar a origem dos sintomas.
O câncer colorretal está aumentando entre pessoas jovens?
Uma análise internacional publicada em The Lancet Oncology examinou dados de registros de câncer de 50 países e territórios. O estudo identificou aumento da incidência de câncer colorretal entre pessoas de 25 a 49 anos em 27 dessas populações. Em 20 delas, o aumento entre os mais jovens foi mais rápido do que entre adultos de 50 a 74 anos ou ocorreu apenas na faixa etária mais jovem. O Brasil não integrou o conjunto de populações analisadas, portanto esses resultados não devem ser interpretados como uma estimativa direta da situação brasileira.
A tendência merece atenção, mas não significa que os jovens concentrem a maioria dos casos. A idade continua sendo um importante fator de risco, e a incidência permanece maior entre pessoas mais velhas.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 casos novos de câncer de cólon e reto por ano no triênio 2026–2028, considerando homens e mulheres. Na Região Centro-Oeste, a estimativa é de 3.900 casos anuais.
Os dados reforçam a importância da informação e da investigação oportuna, sobretudo quando há sintomas ou fatores que aumentam o risco individual.
Quem precisa ter atenção redobrada?
Além da idade, outros fatores podem aumentar o risco de câncer colorretal. Entre eles estão histórico familiar da doença, síndromes hereditárias, antecedentes pessoais de pólipos avançados e doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn.
O sedentarismo, a obesidade, o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas e padrões alimentares desfavoráveis também estão associados ao risco. A prevenção envolve hábitos saudáveis, mas não existe uma única medida capaz de eliminar a possibilidade de desenvolver a doença.
Ter menos de 50 anos não é motivo para ignorar sintomas persistentes. Da mesma forma, nem toda pessoa jovem precisa realizar colonoscopia sem indicação: a decisão depende da avaliação clínica, dos antecedentes e dos fatores de risco.
Rastreamento e investigação não são a mesma coisa
O rastreamento é destinado a pessoas sem sintomas e procura identificar sinais de uma possível doença antes de manifestações clínicas. Já quem apresenta sangramento nas fezes, anemia sem explicação, perda de peso involuntária ou mudanças persistentes no funcionamento intestinal precisa de avaliação médica, independentemente da idade.
Em outubro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a distribuição inicial de 400 mil testes imunoquímicos fecais (FIT) para ampliar o rastreamento do câncer colorretal pelo SUS. A implementação está prevista para ocorrer gradualmente a partir de novembro, inicialmente em capitais e municípios com mais de 500 mil habitantes. A estratégia é voltada a homens e mulheres assintomáticos de 50 a 75 anos.
O teste detecta pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes. Um resultado positivo não confirma câncer, mas indica a necessidade de avaliação e, conforme o protocolo, colonoscopia para investigar a origem do sangramento.
O rastreamento não substitui a investigação de sintomas. Quem apresenta sinais de alerta não deve esperar a idade recomendada nem a implantação do programa em seu município para procurar atendimento.
Como buscar investigação pelo SUS?
O percurso pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou na equipe de Saúde da Família, onde o profissional avalia os sintomas, a duração das alterações, os antecedentes pessoais, os medicamentos em uso e o histórico familiar.
Conforme a situação, podem ser solicitados hemograma para verificar anemia, exames relacionados à deficiência de ferro e outros testes laboratoriais. A equipe também avalia a necessidade de encaminhamento para gastroenterologia, coloproctologia ou outro serviço especializado, de acordo com a organização da rede local.
Na suspeita de câncer colorretal, a colonoscopia é um dos principais exames para investigar a doença. Ela permite visualizar o interior do intestino e coletar amostras para biópsia. A pesquisa de sangue oculto nas fezes pode ter utilidade em contextos específicos, mas um resultado negativo não deve encerrar a investigação quando há sintomas que exigem avaliação.
A Lei nº 13.896/2019 estabelece que os exames necessários à elucidação de uma suspeita de neoplasia maligna sejam realizados em até 30 dias, quando houver solicitação médica fundamentada. O prazo legal não significa que todo caso terá diagnóstico concluído nesse período, pois depende da realização dos exames indicados e da avaliação dos resultados.
O SUS também dispõe de uma modalidade de Oferta de Cuidados Integrados para a avaliação diagnóstica do câncer colorretal, que pode reunir consulta especializada, colonoscopia com ou sem sedação, análise anatomopatológica da biópsia e consulta ou teleconsulta de retorno, conforme a organização e a oferta dos serviços.
Depois da confirmação, começa a definição do tratamento
Quando a biópsia confirma o câncer, é necessário avaliar a extensão da doença. O estadiamento costuma incluir tomografias de tórax, abdome e pelve. Nos tumores do reto, a ressonância magnética da pelve pode ajudar a avaliar a extensão local e orientar o planejamento terapêutico.
Exames laboratoriais, incluindo hemograma e avaliação das funções renal e hepática, também fazem parte da avaliação inicial. O antígeno carcinoembrionário (CEA) pode ser utilizado como marcador basal para acompanhamento, mas não é suficiente, isoladamente, para diagnosticar câncer colorretal.
Com a confirmação e o estadiamento, o paciente é encaminhado ao serviço especializado em oncologia. O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia — especialmente nos tumores do reto — ou uma combinação dessas modalidades. A escolha depende da localização, do estágio, das características do tumor e das condições clínicas do paciente.
Em Mato Grosso do Sul, o acesso aos serviços ocorre conforme os fluxos assistenciais e a regulação do SUS. O Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS) e o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) integram a rede pública de saúde, com serviços e atribuições próprios. A unidade de referência para cada paciente depende da avaliação clínica e do encaminhamento pela rede.
Caso haja dificuldade injustificada no acesso, é importante guardar solicitações, protocolos e registros de atendimento e procurar a unidade de saúde responsável, a regulação ou a Secretaria de Saúde. A Ouvidoria-Geral do SUS também recebe manifestações pelo telefone 136.
Não espere os sintomas se agravarem
Reconhecer alterações no próprio corpo e procurar atendimento são atitudes importantes para evitar atrasos na investigação. Sangramento nas fezes, anemia sem causa esclarecida, emagrecimento involuntário ou mudanças persistentes no hábito intestinal justificam avaliação médica, mesmo em pessoas jovens.
Dor abdominal intensa, distensão importante, vômitos persistentes ou incapacidade de evacuar e eliminar gases podem indicar uma complicação, como obstrução intestinal, e exigem atendimento de urgência.
A mensagem é clara: nem todo sintoma intestinal indica câncer, mas sintomas persistentes precisam ser investigados. Informação, avaliação clínica e acesso oportuno aos exames são etapas fundamentais para identificar a doença e definir o tratamento adequado.
Fonte: HUMAP-UFMS
